sábado, 3 de outubro de 2009

Invade-me oh noite tenebrosa
e arrasta-me a um lugar melhor,
por uma estrada calçada de suor
tão calma e bela como a rosa.

Eu que abandonei minha vida de desgosto
a deixei para ti como alento
de um pobre ser, sedento,
a amar sempre disposto.

Desvaneci o reflexo dos meus passos
reparei as pedras do caminho
em cada uma coloridos laços.

Da noite se fez alegria,
como o vento num moinho
tão belo e claro como o dia.
(ítalo egypto)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

foto por: Tamires Brito


Onda que, enrolada, tornas,
Pequena, ao mar que te trouxe
E ao recuar te transtornas
Como se o mar nada fosse,

Porque é que levas contigo
Só a tua cessação,
E, ao voltar ao mar antigo,
Não levas meu coração?

Há tanto tempo que o tenho
Que me pesa de o sentir.
Leva-o no som sem tamanho
Com que te ouço fugir!
(Fernando Pessoa)

HORIZONTE

O mar anterior a nós, teus medos
Tinham coral e praias e arvoredos.
Desvendadas a noite e a cerração,
As tormentas passadas e o mistério,
Abria em flor o Longe, e o Sul sidério
Esplendia sobre as naus da iniciação.

Linha severa da longínqua costa —
Quando a nau se aproxima ergue-se a encosta
Em árvores onde o Longe nada tinha;
Mais perto, abre-se a terra em sons e cores:
E, no desembarcar, há aves, flores,
Onde era só, de longe a abstrata linha

O sonho é ver as formas invisíveis
Da distância imprecisa, e, com sensíveis
Movimentos da esperança e da vontade,
Buscar na linha fria do horizonte
A árvore, a praia, a flor, a ave, a fonte —
Os beijos merecidos da Verdade.

(Fernando Pessoa)

foto por : Tamires Brito

Abdicação

Toma-me, ó noite eterna, nos teus braços
E chama-me teu filho. Eu sou um rei
que voluntariamente abandonei
O meu trono de sonhos e cansaços.

Minha espada, pesada a braços lassos,
Em mão viris e calmas entreguei;
E meu cetro e coroa — eu os deixei
Na antecâmara, feitos em pedaços


Minha cota de malha, tão inútil,
Minhas esporas de um tinir tão fútil,
Deixei-as pela fria escadaria.


Despi a realeza, corpo e alma,
E regressei à noite antiga e calma
Como a paisagem ao morrer do dia.
(Fernando Pessoa)

sábado, 29 de agosto de 2009

foto por: tamires brito



Ah! Como é bom acordar
e sentir o aroma do vento
que escorre da face aos pés
como uma lágrima
que enxuga a alma.

Como é bom sonhar,
com as transições acordar
lindas palavras dizer
inesquecíveis momentos viver.

Como é bom sorrir,
sorrir até lacrimejar
lacrimejar até partir
partir até voltar.

Como é bom o amanhã,
que traz consigo paz,
de uma nova chance é fã
e criar novos caminhos capaz.

O melhor desse dia,
que eu posso dizer
antes que ele descanse.

Tudo que eu queria
era uma nova chance
a cada novo dia.

Teu sorriso me ilumina,
teu olhar me orienta,
tua alegria me contamina,
teu calor me alimenta.

(ítalo egypto)

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

foto por: tamires brito



Na noite escura, sombria claridade
no mar agitado, impiedosa calmaria
no olhar distante, longínqua proximidade
na amizade sincera, verdadeira fantasia.

No verão, sustentar a beleza
no inverno, recriar a emoção
na primavera, primar a sutileza
no outono, transbordar satisfação.

Assim segue o olhar distante,
sustentando a sutileza de um mar agitado,
recriando a beleza de uma amizade longínqua.

Assim segue a noite escura,
transbordando uma emocionante claridade
primando uma sincera proximidade.
(ítalo egypto)

Como os ecos ao longe confundem seus rumores
na mais profunda e tenebrosa unidade,
tão vasta como a noite e como a claridade,
harmonizam-se os sons, os perfumes, as cores.

(Baudelaire)

domingo, 23 de agosto de 2009

foto por: ítalo egypto


Ao alvorecer minha vida começa
como uma grande aventura
não há alegria como essa
na minha vida não há partitura.

Ao meio-dia minha vida é um drama
tudo é motivo de tensão
é engraçado minha alma me chama
e eu parado morro de apreensão.

O dia muda vagamente
a tarde passa eternamente
já me sinto diferente.

Ao pôr-do-sol minha vida é uma tragédia
ela é simplesmente
uma trágica comédia.
(ítalo egypto)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Foto por: Tamires Brito


Ao alvorecer minha vida começa
como uma grande aventura
não há alegria como essa,
na minha vida não há partitura.
(ítalo egypto)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Foto por: ítalo egypto


O Passageiro

O passageiro segue sentado,
observa tudo em sua volta
o banco, um velho estofado
na estrada uma grande revolta.

O passageiro segue sentado,
no campo a marcha da boiada
aos gritos do peão, transeunte calado
ao silêncio da viagem, à vapor silenciada.

O passageiro segue sentado,
antes que a algo se apegue
volta ao velho estofado.

E não há ninguém que negue,
a boiada, o campo ou peão abismado,
o passageiro sentado, segue.
(Ítalo Egypto)